sábado, 13 de agosto de 2016

O livre comércio nos enriquece e o protecionismo nos empobrece - como reconhece Paul Krugman


Enterrada em uma recente postagem de blog feita por Paul Krugman estava a seguinte e surpreendente declaração:
"Sim, o protecionismo reduz a renda mundial."
A frase está perfeitamente correta, e sintetiza praticamente tudo o que você precisa saber sobre o protecionismo: ele reduz a renda mundial da população, principalmente dos mais pobres.
O protecionismo, como o próprio nome diz, serve para proteger as empresas nacionais ruins e blindá-las contra os desejos dos consumidores — principalmente dos mais pobres, que ficam sem poder aquisitivo para comprar produtos bons e baratos feitos no exterior.
Para os protecionistas, as indústrias nacionais não devem ser submetidas à liberdade de escolha dos consumidores nacionais.  Os consumidores não devem ter o direito de escolher produtos estrangeiros.  Eles devem ser obrigados a comprar apenas produtos nacionais mais caros.
Sem a concorrência de produtos estrangeiros, e com aqueles cidadãos mais pobres podendo comprar apenas produtos mais caros fabricados nacionalmente, os grandes empresários industriais do país não têm motivo nenhum para reduzir seus preços e elevar a qualidade de seus produtos.  Eles passam a usufruir um mercado cativo.
E os consumidores, principalmente os mais pobres, passam a ser tratados como gado em um curral: ficam proibidos de comprar produtos estrangeiros baratos e são obrigados a comprar apenas os produtos nacionais mais caros desses empresários privilegiados.
Enquanto os lucros destes se tornam inabalados, a renda disponível dos mais pobres vai definhando.
Qual é a melhor maneira de eliminar o protecionismo — se por meio de acordos unilaterais, bilaterais, continentais etc. — é algo que pode ser debatido, mas não deveria haver dúvida de que o protecionismo deveria ser abolido por causa de seu impacto negativo sobre a renda.
No entanto, e estranhamente, Krugman não termina por aí.  Algo ainda o incomoda.  Em todo o restante de sua postagem, bem como em todas as outras em que ele aborda o assunto, ele inventa explicações forçadas e convolutas para justificar por que o protecionismo não deve ser atacado. 
Por exemplo, imediatamente após ter feito essa afirmação contra o protecionismo, ele diz que:
"mas se você quiser argumentar que a liberalização comercial foi o principal motor do crescimento econômico, ou qualquer coisa nesse sentido, bem, os modelos não indicam isso."
A liberalização comercial é o "principal motor do crescimento econômico"?  Não sei se é o "principal motor do crescimento econômico".  Aliás, não se conhece algum modelo que afirme que a liberalização comercial, por si só, seja o "principal motor do crescimento econômico".  Mas o que realmente se sabe, e o próprio Krugman reconhece, é que o protecionismo "reduz a renda mundial da população".
Isso, e apenas isso, já não seria o bastante para condená-lo?
Em outra ocasião, Krugman afirmou o seguinte:
"Com efeito, a defesa elitista de um comércio cada vez mais livre é uma enganação. [...] O que os modelos de comércio internacional utilizados pelos verdadeiros especialistas dizem é que, no geral, acordos comerciais não geram mais comércio e nem criam e nem destroem empregos."
Sim, isso parece estar correto.  O livre comércio não deve ser buscado com o intuito de "aumentar empregos", mas sim com o intuito de aumentar a renda e a qualidade de vida.  E, sobre a renda, lembre-se de que, segundo o próprio Krugman, o protecionismo "reduz a renda mundial"!
Livre comércio e empregos
Agora, é verdade que uma maior concorrência entre trabalhadores nacionais e estrangeiros pode levar a um declínio nos salários (e no emprego) em alguns setores da economia.  Porém, esse seria apenas um efeito de curto prazo.  A livre concorrência entre produtores domésticos e estrangeiros também leva a uma redução nos preços dos bens e serviços, os quais podem agora ser livremente importados de fora.  Portanto, ao passo que os salários nominais podem cair em alguns setores, os salários reais sobem para todos, pois estará havendo um declínio geral de preços na economia.
Graças ao livre comércio, os consumidores agora irão gastar menos dinheiro em bens e em vários serviços.  Consequentemente, eles poderão agora gastar mais dinheiro em outros bens e serviços, levando a um aumento da demanda e, logo, dos lucros nos setores que fornecem estes bens e serviços.  Consequentemente, haverá mais investimentos nestes setores.  E essa maior taxa de investimento naturalmente levará à criação de mais empregos nestes setores, desta maneira contrabalançando qualquer eventual aumento no desemprego que possa ter ocorrido.
Alternativamente, os consumidores podem optar por poupar essa renda extra possibilitada pelo declínio nos preços.  Esse aumento na taxa de poupança tende a gerar um declínio nas taxas de juros, tornando mais lucrativos determinados investimentos de longo prazo e intensivos em capital, os quais não eram viáveis antes.  Aproveitando a oportunidade fornecida por esse aumento na poupança, empreendedores irão tomar emprestado para investir nesses projetos de longo prazo e intensivos em capital, os quais, por si sós, não apenas criam mais empregos, como também geram um aumento na demanda por bens de capital, o que eleva os lucros nas indústrias produtoras de bens de capital e, consequentemente, levam a mais investimentos e empregos nestes setores.
Livre comércio e especialização
Fabricada na Malásia utilizando máquinas feitas na Alemanha, algodão proveniente da Índia, forros de colarinho do Brasil, e tecido de Portugal, em seguida sendo vendida no varejo em Sidney, em Montreal e em várias cidades dos países em desenvolvimento (ao menos naqueles que são mais abertos ao comércio exterior), a camisa típica da atualidade é o produto dos esforços de diversas pessoas ao redor do mundo.  E, notavelmente, o custo de uma camisa típica é equivalente aos rendimentos de apenas umas poucas horas de trabalho de um cidadão comum do mundo industrializado.
Obviamente, o que é verdadeiro para uma camisa vale também para incontáveis produtos disponíveis à venda nos países capitalistas modernos.
Como é possível que, atualmente, um trabalhador comum seja capaz de adquirir facilmente uma ampla variedade de bens e serviços, cuja produção requer os esforços coordenados de milhões de trabalhadores? A resposta é que cada um desses trabalhadores faz parte de um mercado tão vasto e abrangente, que passa a ser vantajoso para muitos empreendedores e investidores organizarem operações de produção altamente especializadas, as quais são lucrativas somente porque o mercado para seus produtos é grande.
Esta especialização tanto do trabalho quanto da produção, ao longo de diferentes setores industriais ao redor do mundo, é exatamente o fenômeno da globalização.
Suponha, por exemplo, que as camisas possam ser feitas somente de duas maneiras. A primeira é manualmente. Para um fabricante de camisas que utiliza este método — independentemente de quantas camisas produz —, o custo para produzir cada camisa é de $ 250. Trabalhando em tempo integral na produção manual de camisas, o camiseiro consegue produzir dez camisas por mês.
A segunda maneira é produzindo as camisas em uma fábrica altamente mecanizada. Se a fábrica funciona ao máximo de sua capacidade de um milhão de camisas por mês, cada camisa tem um custo de produção de $ 5. Porém, como as instalações e todo o maquinário da fábrica exigem um grande investimento inicial, operar a fábrica abaixo de sua capacidade máxima faz com que o custo de cada camisa aumente. A razão para este aumento é que produzir menos camisas — já tendo incorrido em um investimento alto — impede o fabricante de diluir todo o custo do investimento, algo que só ocorre quando a produção é máxima. Quanto menor for a produção da fábrica, maior será o custo por camisa produzida.
Sendo assim, qual método de produção seria utilizado pelo fabricante? A resposta é: depende do tamanho de seu mercado.
Se um fabricante de camisas pretende servir a um mercado de milhões de pessoas, ele utilizará o método da fábrica. Contudo, se ele espera atender a um mercado de apenas umas poucas dúzias de clientes em potencial, ele optará por produzir as camisas manualmente. Se cada fabricante de camisas tivesse acesso somente a mercados pequenos, o preço das camisas seria mais elevado do que se os fabricantes tivessem acesso aos mercados maiores.
Este exemplo proporciona um importante argumento em prol do livre comércio: ao expandir os mercados para além das fronteiras políticas, as empresas podem aproveitar melhor as vantagens daquilo que os economistas chamam de "economias de escala", possibilitando assim que os consumidores usufruam preços mais baixos.
Outra vantagem da especialização é que ela permite aos consumidores aproveitarem ao máximo os recursos e talentos localizados em lugares distantes. Canadenses podem desfrutar dos abacaxis cultivados no Havaí, ao passo que havaianos podem desfrutar do xarope de maple produzido no Canadá; os franceses aproveitam a expertise financeira concentrada na cidade de Londres, enquanto os londrinos desfrutam dos vinhos da Borgonha e Bordeaux. Brasileiros se beneficiam de produtos tecnológicos manufaturados na China, ao passo que os chineses usufruem a carne e o café produzidos no Brasil.
Embora outros fatores estejam sempre presentes, as características geográficas de uma região — por exemplo, seu clima, topologia e reservas de minerais —, assim como os talentos especiais de sua força de trabalho, determinam quais são os bens e serviços que podem ser produzidos nessa região com o menor custo — ou, como dizem os economistas, "com vantagem comparativa".
Quanto mais livre for o comércio, maior a probabilidade de que regiões se especializem na produção daqueles bens e serviços que sua população local é capaz de produzir com mais eficiência, e em seguida importem aqueles bens e serviços que são produzidos de maneira mais eficiente em outras localidades.
O livre comércio proporciona aos consumidores a oportunidade de comprar bens e serviços dos melhores produtores do mundo. Se as camisas pudessem ser mais bem produzidas domesticamente, então o livre comércio ajudaria a manter esses produtores lucrativamente no negócio (não haveria outros locais de onde importar camisas melhores e mais baratas). Alternativamente, se as camisas fossem mais bem produzidas no exterior, os consumidores domésticos somente poderiam ter pronto acesso a essas camisas por meio do comércio.
Assim, o livre comércio faz com que os ineficientes produtores domésticos de camisas tenham de redirecionar seus talentos para outros setores em que sejam mais capacitados, removendo-os da produção de camisas e alocando-os para outras atividades produtivas.  Isso beneficia os consumidores.  Empreendimentos ineficientes são ruins para uma sociedade.  Eles consomem recursos escassos e não entregam valor.  Na prática, eles subtraem valor da sociedade.  Não faz sentido econômico manter uma fábrica de pentes em um país se sua população está mais bem servida comprando pentes melhores e mais baratos de outros produtores.
Ao redirecionar os recursos ao redor do globo para aquelas tarefas nas quais cada recurso aplicado faz um trabalho melhor, o livre comércio rearranja os recursos mundiais de maneira a gerar a maior produção possível, ao mesmo tempo em que proporciona aos consumidores o máximo acesso (mais fácil e mais barato) a essa produção.
Ausência de livre comércio é escravidão
Apenas imagine viver em uma sociedade na qual nosso trabalho diário serve unicamente ao propósito de sobrevivermos, e não para desenvolver nossos talentos. Pois essa é a realidade nos países que mais restringem o livre comércio: as pessoas, ao serem praticamente proibidas de utilizar os frutos do seu trabalho para adquirir aqueles bens e serviços que são mais bem produzidos por estrangeiros, acabam sendo obrigadas a desempenhar várias atividades nas quais não têm nenhuma habilidade.
Uma pessoa boa em informática acaba tendo de trabalhar como operário em uma siderurgia, pois seu governo restringe a importação de aço, que poderia ser adquirido mais barato de estrangeiros.
Estando isoladas da divisão mundial do trabalho, tais pessoas trabalham apenas para sobreviver, e não para desenvolver seus talentos. Elas não podem trabalhar naquilo em que realmente são boas, pois a restrição ao livre comércio obriga os cidadãos a fazerem de tudo, inclusive aquilo de que não entendem.
Isso é uma vida cruel.
Apenas imagine como seria sua vida se você tivesse de fabricar seu computador (ou tablet ou smartphone), cultivar a comida que você come, criar as roupas que você veste, e construir a estrutura na qual você mora. Caso tivesse de fazer tudo isso, você certamente morreria esquálido, faminto, nu, desabrigado e desempregado.
Graças ao livre comércio, no entanto, você não é obrigado a se concentrar naquilo em que você não é bom. Em vez disso, você pode apenas trocar os frutos do seu trabalho por todos aqueles bens de consumo que você não é capaz de fabricar.  Nesse cenário, quanto maior a sua liberdade para adquirir esses bens — não importa se eles foram fabricados na sua cidade ou em uma indústria do Vietnã —, melhor.
O protecionismo nos torna mais pobres
O protecionismo não apenas protege os ineficientes, garante seus lucros, e obriga os consumidores a pagarem preços maiores (o que configura uma redistribuição de recursos dos consumidores domésticos para os produtores domésticos), como também interrompe todo o processo de especialização descrito acima, desta maneira impedindo que o padrão de vida aumente no longo prazo — podendo, inclusive, levar ao seu declínio.
Ao dar uma sobrevida a empresas ineficientes, as tarifas protecionistas impedem que a mão-de-obra seja retirada dos setores menos eficientes e seja alocada para os comparativamente mais eficientes.  Consequentemente, dado que o protecionismo impede um maior grau de especialização, ou mesmo a reverte, os benefícios da especialização não podem ser obtidos.  A produtividade não aumenta (ou, no mínimo, não aumenta como poderia) e, consequentemente, os salários reais não sobem.
Contrariamente à retórica popular, o livre comércio não "destrói empregos".  Ele apenas leva a uma mudança de alocação de recursos (mão-de-obra, capital e outros fatores), retirando-os dos setores comparativamente ineficientes da economia doméstica para outros mais comparativamente eficientes.  Esse processo de especialização nas linhas de produção comparativamente mais vantajosas não apenas não destrói empregos, como também permite grandes ganhos em eficiência e produtividade, o que leva a um aumento na renda real.
É assim que, longe de prejudicar os trabalhadores domésticos, o livre comércio faz exatamente o oposto — ele os enriquece.  Com efeito, é o protecionismo o que nos deixa mais pobres, trabalhadores inclusos, ao artificialmente proteger as empresas ineficientes, levando a uma má alocação de recursos e a um declínio no padrão de vida de todos.
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Georgi Vuldzhev é graduando em ciências econômicas e membro do Instituto para a Economia de Mercado, em Sofia, na Bulgária.
John Tamny é o editor do site Real Clear Markets e contribui para a revista Forbes.
Donald Boudreaux foi presidente da Foudation for Economic Education, leciona economia na George Mason University e é o autor do livro Hypocrites and Half-Wits.
Leandro Roque é o editor e tradutor do site do Instituto Ludwig von Mises Brasil.


fonte: http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=2459